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 Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta

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jorgemeida
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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Qua Out 23, 2013 11:17 pm

kaci fixe 
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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Qua Dez 11, 2013 9:08 am

Amigos vai-se realizar já este Dia 14 ,Sábado ,uma almoçarada \convivio dos passarinheiros ,10 euros por pessoa ,com direito a tudo ,vai haver exercicio de martelinhos de madeira ,para partir uns bichinhos ,quem estiver disposto a juntar-se a esta inciativa ,unga ,tomarei conta do assunto
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Apareçam que vai haver gaijos de boca aberta quando levar um canário a cantar torruchéu e riiinntototochéu ,até se passam hehehe


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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Qua Dez 11, 2013 11:31 pm

Gostava de ir mas não posso

 kaci fixe 
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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Seg Dez 16, 2013 8:28 pm

E prontos lá se passou uma almoçarada da malta da passarada
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Bons momentos ,alguns passarinhos e Golias a dar cartas de que como se canta e bem ,quem esteve presente viu e ouviu o Golias ,uma enciclopédia de cantares doutro mundo ,Golias marca pela diferença ,cantou pouco ,mas o que cantou ,foi o suficiente para ficarem estupefactos e de ouvidos entupidos ,com o magnifico desempenho do Golias ,é único até á data ,mas sem peneiras

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Falou-se do costume ,de cantares ,de pintassilgos ,de tentilhôes , bem valente estava por lá a cantar em blébléchéu ,um pintassilgo que parecia a pilhas ,um valentâo ,e com arte de saber cantar

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O homem que me gamou a gasosa ,lá mamei vinho purex hehehehe

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Este aqui chegou a ser meu chefe no obral ,é tentilheiro ,mas aqui quem dá as cartas sou eu .eles sabem hehehehe

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O meu fan ,também tenho fans pá heheh

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Cheirinho a tradiçâo foi mais que evidente ,bons momentos


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Ui só passarinheiros da treta hehehehe
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É seu barrigudo ,muita massa aí investida heheheheh
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Assim é que eu gosto de falar de pássaros... ... ... Ao vivo ,assim vale a pena falar de tentilhôes a sério .

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Golias a carregar baterias ,onde vai ,deixa marca ,tomara haver tentilhôes como ele canta ,tomara !

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A malta esteve toda do best ,falou-se disto com alma ,com tradiçâo e foi o rever de gente que me é muito semelhante e amiga .

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O meu sócio uihihihihihih
Mas está em todas ,sempre hhehehehe,e prontos !!VIVA A TRADIÇÂO LISBOETA PASSARINHEIRA !!

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Até uma próxima amigos ,foi porreiraço !!


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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Seg Dez 16, 2013 11:04 pm

Zé ta visto que o almoço foi no bairro de santiago a seguir a camarate e o teu socio é o abelha é uma melga do caraças mas adora mel   eu conheço alguns dai não sabia que o almoço ia ser ai

 kaci fixe 
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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Seg Dez 16, 2013 11:14 pm

Tinha dito que foi em Camarate


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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Seg Dez 16, 2013 11:15 pm

Por acaso nâo disse aqui heheh Lapso man ,Abraço Jorge


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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Ter Dez 17, 2013 11:08 pm

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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Dom Jan 26, 2014 6:44 pm

Ora bem ,tinha dito que este ano eu íria fazer algo de único ,nunca se fez disto e porque o faço ? Faço porque sou um apaixonado \viciado  Very Happy  em tentilhôes e em tudo o que ele transporta,esta ideia surge do nada ,precisava talvez de algum patrocinio ou algém que queira inscrever empresa ou outra coisa qualquer ,isto ainda á tempo ,mas mais vale cedo do que terde demais
Fiz estas placas em 5 cores ,90 peças .
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Tem por medida 8,0 cm x 8,0 cm ,com corante e verniz de água ,portanto leva corante e verniz
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Como podem ver ,bons acabamentos ,isto dá trabalho e despesa ,mas quem corre por alma e gosto nâo cansa e fico muito contente poder fazer algo de único .
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Fiz alguns motivos e atençâo é só para vencedores de series
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Do meu sporting ,como de outro clube ,a titulo de exemplo
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Esta ultima a divulgar o Kacipesca ,um assunto ainda que vou expôr ,visto que mandar fazer 90 etiquetas autocolantes aumenta-me já o orçamento hehe Mas ainda análize ,pode levar na outra face um emblema dum clube ,até o organizador etc ,por agora é apenas um esboço
Pode ser este forum como outro ,isto é apenas a titulo de exemplo
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Última edição por José Luis em Dom Jan 26, 2014 7:36 pm, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Dom Jan 26, 2014 6:59 pm

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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Sab Mar 22, 2014 11:15 pm

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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Dom Mar 23, 2014 11:54 am

Lindo

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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Seg Maio 05, 2014 7:28 am

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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Seg Maio 05, 2014 8:54 am

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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Qua Jun 18, 2014 6:55 am

Bié, bié, bié, bié, tuiiiim, tuiiiim, tuiiiim, tuiiiim, tótótóchéu!
Existe uma legião de homens que passam o ano à espera que Maio traga consigo os concursos de tentilhões. Para muitos deles, são raras as coisas que têm mais importância do que estes pequenos pássaros com queda para o canto. Garantem que estas competições são uma tradição muito antiga, que “já tem uns 100 anos ou mais”. Em dias de concurso, aparecem centenas de concorrentes. Entre todos, há um que se destaca: A. Ninguém se lembra de um passarinheiro mais forte do que ele. É campeão incontestado há oito anos seguidos. Ao nono, surgem as dúvidas.
João de Almeida Dias
Junho 2014
O calor que ainda sobra das brasas entretanto extintas do assador de carne não chega para aquecer A., que, enregelado, encolhe o pescoço massudo entre o par de ombros largos. Caminha impacientemente de um lado para o outro, com as mãos resguardadas dentro dos bolsos do seu casaco polar azul e branco. Para as pálpebras não se fecharem com o sono, A. puxa-as para cima com um levantar de sobrancelhas, que ganham a forma dois “v” de pernas para o ar. São 6h30 e A. está, desde a meia-noite, à entrada do recinto onde será realizado o primeiro Concurso de Tentilhões do ano, num bairro lisboeta.
A ideia de fazer noitada partiu de outros dois passarinheiros amigos de A.: C. e F. Quiseram juntar o útil ao agradável. Útil porque, ao chegarem antes de todos os outros concorrentes, estariam em primeiro lugar na fila para inscreverem os seus pássaros nas melhores séries, isto é, a altura do dia em que os levam a jogo. Agradável porque, ao fim de mais uma semana de trabalho, estariam sentados em redor de um assador num constante afã de bifanas, couratos e entremeada. Seria caso para acompanharem tudo com alguma cerveja e muita conversa.
O resultado do convívio pode ser visto dentro do contentor de ferro que está a cerca de 20 metros do assador. Por cima do lixo que já lá estava, amontoam-se neste raiar do sol embalagens de carne já vazias, garrafas de cerveja, alguns pacotes de sumo e maços de tabaco nervosamente amarrotados.
A. está exausto. Sem vontade de entrar em grandes conversas, só abre a boca para lamentar as horas de sono perdidas. “Eu já não tenho idade para isto, pá.” Ainda assim, aguarda de pé o início do concurso. Num gesto de impaciência, tira o molho de chaves que tem no bolso direito do casaco. Pega no cartão de descontos de um supermercado, que tem preso ao porta-chaves, e abana-o ritmadamente, ao jeito de uma pandeireta. O tilintar metálico só cessa quando A. estende a mão aos outros concorrentes, que, acabados de chegar, fazem questão de cumprimentá-lo. Ainda o acto diplomático não está concluído, já os recém-chegados usam as mais variadas fórmulas para lhe fazerem a mesma pergunta: “Então, pá, já cá estás há muito tempo?”; “A que horas é que chegaste cá, ó A.?”; “Olha quem é ele! Já estás cá há bué, não?”. A. responde-lhes vagamente: “Há uma data de horas”; “Sei lá, pá”; “Já nem sei bem”.
Um deles, quando se afasta de A., volta para perto de alguns passarinheiros da sua confiança e comenta: “Este gajo é a mesma coisa todos os anos.” É o elogio possível àquele que é considerado o melhor passarinheiro dos últimos oito anos.
***
A. nasceu há 43 anos num antigo bairro de barracas lisboeta, que foi inaugurado nos inícios dos anos 60 por três famílias de Braga que ali se decidiram fixar, não muito longe de uma das pistas do aeroporto de Lisboa. Aos bracarenses rapidamente se juntaram famílias como a de A., cujas barracas nos bairros lisboetas de Alcântara e da Ajuda foram demolidas para assim poder ser construída a então ponte Salazar, hoje 25 de Abril.
Ir à escola foi apenas um apontamento na vida de A. Quando estudava na primária, o toque de saída das aulas era a deixa perfeita para pegar na sua bicicleta e pedalar tão rápido quanto fosse possível. O destino era sempre o mesmo: umas obras abandonadas que ficavam num monte perto do seu bairro. Assim que lá chegava, começava a armar ratoeiras para lagartixas e erguia redes verticais para apanhar pássaros. Quando não estava na escola, A. não aguentava ficar em casa e à primeira oportunidade fugia porta fora para se dedicar às suas capturas.
Sem saber do filho, a mãe de A. vivia numa constante preocupação. “Mas onde é que anda aquele miúdo?!” Gritava-lhe o nome a plenos pulmões e A., lá do alto das obras velhas, ouvia-a chamá-lo para a barraca. Ia logo. “Eu ouvia, pá, pronto, ‘se me chamou eu vou lá’. Eu não consigo ter a minha mãe a chamar-me e eu não ir.” Só houve uma vez em que passou das marcas. Como era de noite, altura em que os pássaros já estão recolhidos e as lagartixas não se deixam ver com tanta facilidade, A. aproveitou para jogar à bola com uns amigos numa praça perto da sua barraca. “Anda já para casa!”, gritou-lhe a mãe. Demasiado envolvido no jogo, respondeu-lhe com um “já vou!” sem intenção e deixou-se ficar em campo. Quando finalmente voltou a casa… “pumba!”.
Desde novo que A. está habituado ao som de pássaros a cantar logo pela manhã. Começou por ouvir os pássaros do pai — um afamado vencedor de concursos de tentilhões, que, até A. nascer, nunca tinha passado a arte a nenhum dos seus sete filhos. A., o mais novo de todos, foi o escolhido para seguir as pisadas do pai.
Ensinou-lhe tudo.
O tentilhão macho é um pássaro territorial. Cada um tem a sua postura, isto é, o seu quinhão de terra inviolável. Se outro macho tentar aproximar-se “para tentar galar a fêmea dele”, o tentilhão que já lá está fará de tudo para se afirmar, qual namorado possessivo. O último recurso será sempre a violência física. É nessa fase em que os tentilhões, pequenos e aparentemente inofensivos, podem ser fatais uns para os outros. Mas antes de avançar com o bico pronto a ferrar no adversário, o tentilhão dispõe de outro recurso: o canto. É nesta disputa cantada que consistem os concursos.
O cantar de um tentilhão divide-se em três partes: pega, pancadas e remates. As combinações são várias, desde as mais fáceis às mais inatingíveis. Cada tentilhão aprende a cantar conforme aqueles que o rodeiam. Por exemplo: “bié, bié, bié, bié, tuiiiim, tuiiiim, tuiiiim, tuiiiim, tótótóchéu!”. Daqui, o conjunto do vários “bié” representa a primeira parte, a pega. É nela que o tentilhão chama a atenção do seu adversário, avisando-o que se não recuar deve preparar-se para um duelo. As pancadas surgem logo a seguir quando o tentilhão canta “tuiiiim, tuiiiim, tuiiiim, tuiiiim”. Esta fase consiste nas investidas que a ave faz sobre o seu inimigo, como um lutador de boxe que, murro após murro, vai moendo o seu adversário. E, por fim, chega o golpe final, isto é, o remate. Neste caso, “tótótóchéu!”. É um som claro, bastante mais fácil de distinguir do que as duas partes que lhe antecedem. Poder-se-ia dizer que é um grito, se tal fosse possível a um tentilhão. A sua função é essencial no confronto: determina quem ganha. Numa discussão humana, equivale à pessoa que consegue elevar a voz mais alto e dita: “Acabou a conversa, quem manda aqui sou eu!”
Nos concursos de tentilhões tenta-se recriar esta situação, ignorando o facto de o cenário não ser uma planície do Ribatejo mas antes um pátio asfaltado em Lisboa. O dia é dividido em séries de 15 minutos, onde entram cinco tentilhões de cada vez. O pássaro vencedor será aquele que, perante o ouvido atento de cinco jurados, conseguir fazer um canto completo mais vezes. Se não conseguir fazer o remate, não conta. Os grandes vencedores conseguem chegar às 230 cantigas num quarto de hora. Não é para qualquer um.
“Quando havia concursos eu ia com o meu pai. Ele tratava dos pássaros de uma maneira diferente. Ele é que me ensinou. ‘Pá, olha para o concurso, tens de fazer assim e assim e vais ver amanhã. Dás um bocadinho disto e daquilo e tal, e amanhã vais ver se ele não vai cantar mais!’”, recorda A.
(Mais do que isto A. não diz. Não porque não se lembra mas porque não quer revelar o método que é seu por herança. Numa conversa, entusiasmado com o tema da alimentação dos seus pássaros, chegou a referir dois ingredientes ideais para fortalecer os tentilhões, que vão para além da costumeira alpista. Logo depois de falar, apressou-se a pedir que não divulgássemos o que nos acabava de contar. “É que depois os outros começam a copiar. Isto é um velho ditado: ‘ensina-os a ladrar, depois eles querem-te morder!’”)
Quando A. tinha 16 anos o pai morreu. Sem casa, carro, dinheiro ou outros haveres de maior importância, a herança que deixou a A. foram tentilhões. Este achou por bem dar um deles ao seu irmão mais velho, mesmo que ele estivesse chateado com o pai de ambos. “Olha, queres uma recordação dele? Toma lá um pássaro do pai… Não há mais nada, o que é que queres?”
Com a morte do pai, A. sentiu que tinha chegado o momento de se tornar no melhor passarinheiro possível.
“Eu sou um gajo que… Epá… A pessoa de que eu mais gosto neste mundo deve ser o meu pai. Eu agora tenho filhos, a minha mãe ainda é viva, os meus irmãos são vivos, mas o meu pai… Isto tornou-me, pá… sei lá, pá… Sei lá, pá… Sei lá o que é que me passou pela cabeça. Já percebia um bocadinho de pássaros e comecei a tentar ir aos concursos, onde quer que fosse falado… Isto não é por causa de mim, estás a ver? Isto é por causa do meu pai. Para ele ver. ‘Olha, afinal já ganhei tudo, mas posso agradecer-te a ti’.”
Entre a morte do pai e os dias de hoje, só houve uma altura em que A. deixou os pássaros para trás. Aos 18 anos foi chamado para cumprir o serviço militar obrigatório. Sem escolha, largou o emprego que tinha nas obras e partiu para o quartel de Vila Real com o coração nas mãos. Não teve outra opção senão deixar os pássaros a quase 400 quilómetros aos cuidados da mãe. “Você não me deixe os pássaros morrer, olhe lá! Eu não tenho mais nenhuns!”, implorou-lhe antes de partir.
Quando voltou, foi viver para casa do irmão mais velho, num bairro social nos subúrbios de Lisboa. O irmão era dono de um estábulo, onde tinha alguns cavalos e vitelos, juntamente com um sócio. A. ajudava-os como podia e ia todas as noites tratar da manutenção dos animais – não deixou de prestar cuidados diários aos seus tentilhões, que resgatou para si assim que voltou da tropa. Houve um dia em que os cavalos fugiram do estábulo e A. foi mandatado para ir buscá-los. Quando chegou ao pé deles estava lá a sobrinha do sócio do seu irmão, também embrenhada na missão de devolver os animais ao seu lugar. “Apanhei o cavalo, era uma égua preta, ainda me lembro. E enquanto voltava virei-me para a moça e perguntei-lhe o nome.” A resposta foi rápida, a conversa seguiu-se, cada um com o seu cavalo pela mão. Ela risonha, ele optimista. “Opá, isto está a dar para o meu lado, isto está a dar para o meu lado!”, pensou na altura. No dia seguinte contou ao irmão aquela conversa. Perante o entusiasmo de A., este advertiu-o: “Olha lá,  tu tem cuidado, olha que isso não é assim, tu não penses que é namorar e depois largar. Não penses que isto são pessoas de andarem no ora agora namoras, ora agora largas. Não são dessas pessoas. Embora morem no bairro, não são assim.” Na altura com 20 anos, A. tentou acalmá-lo: “Não, então, achas?”
Bastou um ano para casarem. Dois para terem a primeira filha. A seguir outra. E depois a terceira. Só à quarta vez é que A. conseguiu concretizar o seu objectivo. “Eu sempre disse à minha mulher que se o nosso primeiro filho nascesse rapaz eu já não tinha mais nenhum. Só para lhe dar o nome do meu pai. O meu pai era Albertino. E é o nome que o meu filho tem hoje. Tem cinco anitos (…). O Albertino é fora de série, pá. É muita malandro. Ele gosta de pássaros, mas não lhe posso dar muitas abébias, porque ele ainda não tem muito tino do que é um pássaro. Se eu lhe meto o pássaro na mão o gajo já não pára.” Ainda assim, já leva o filho aos concursos e pede-lhe para ser ele a levar o pássaro a concurso. “O gajo começa logo ‘onde é que está o meu passarito?’. É uma maravilha, pá, uma maravilha… Se um dia eu fechar os olhos, ele que faça tudo igual.”
***
À primeira vista, as casas do bairro de A. são todas iguais. Os prédios são todos pintados de branco e contornados a amarelo, não conseguindo, ainda assim, contrariar a ideia de um cinzentismo omnipresente. Os edifícios seguem-se uns aos outros, geminados. Cada um tem a sua escadaria, que se estende ao longo de quatro andares.
A diferença entre as casas começa na audição. Do piso cimeiro de um destes prédios canta um sem número de pássaros a um ritmo desenfreado e a um volume notável. Olhando para a marquise de onde os sons partem, podem ver-se cinco gaiolas tapadas por panos brancos. É fácil deduzir que é a casa de A.
Lá dentro, na sala, A. abre as portas de vidro do móvel onde está pousada a televisão. De cócoras, vai retirando um a um os troféus. Conhece-os todos, bastando apenas um ou dois segundos para se lembrar a que ano é que eles se referem e a que classificação dizem respeito. Pegando nas taças sem uma ordem aparente, torna-se claro que, a partir de 2006, as taças arrecadadas por este passarinheiro são cada vez mais e maiores. “Nos últimos oito anos eu ganhei tudo o que havia para ganhar, pá, não dei hipóteses a ninguém.”
Com uma taça entre as mãos, A. tenta explicar a sensação de ganhar um concurso de tentilhões. “É uma grande adrenalina, é mesmo… Porque isto não é só um pássaro, são muitos. Chegam a ser mais de 200 pássaros num dia inteiro, lá nos concursos. Epá, e se tu ganhas, tu tás falado por todo o lado, pá, não tenhas dúvidas… Os bairros vão estar todos a falar de ti!”
Basta dar dois dedos de conversa com alguns dos passarinheiros dos bairros que concentram grande parte dos aficionados para confirmar a tese de A. O seu nome é conhecido em todos os bairros onde se praticam estes concursos. “Ele é incrível, vive mesmo para isto, não quer saber de mais nada”, asseguram uns, à semelhança de outros que garantem que “ele passa o ano todo a preparar-se para os concursos”. Outro passarinheiro recorre ao universo do futebol para traduzir o estatuto de A.: “Ele é como se fosse o Guardiola e o Mourinho juntos.”
Não é por acaso que se fala de treinadores e não de jogadores. Afinal de contas, quem canta são os pássaros e isso não pode ser controlado. A não ser, claro, que se seja o melhor passarinheiro dos últimos dez anos. A. sabe tudo o que tem de fazer para os seus tentilhões cantarem de manhã, à tarde e, com alguma sorte, à noite, altura em que a maior parte dos pássaros ficam mudos. Cantam como ele quer: cantares rápidos e eficazes, como convém nos concursos. São os pássaros “valentes”, “tesos”, “bons para o pau”. Se passar um pelas mãos de A. que não seja merecedor de tais epítetos, o destino é certo: “Mando-os a voar.”
De todos os pássaros que tem, há um que se destaca. Uma comparação a Messi ou a Cristiano Ronaldo não faria justiça às capacidades deste tentilhão. Pelo cantar rápido, sem misericórdia, a um ritmo que até os mais velhos e experientes passarinheiros consideram raro, ficou conhecido como “a mota”. Foi com ele que ganhou praticamente todas as taças dos últimos oito anos. “É uma mota, pá, aquilo é uma mota… Bvvvvvuuuuuuu! Quando começa a cantar já não pára!”
Ao longo do tempo que tem tido “a Mota” nas mãos, A. já recebeu inúmeras propostas em troca do pássaro. Não foram poucas as vezes que lhe foram estendidos mais de 500 euros. A. nunca cedeu. Até houve quem lhe dissesse para pôr um preço. Sem sucesso. Hoje em dia as ofertas começam a abrandar – o pássaro já leva oito anos de gaiola, fora aqueles que andou na natureza. Por isso sujeita-se a morrer a qualquer momento. Mas ainda há quem sonhe comprá-lo.
Não são poucas as histórias de passarinheiros que perderam as estribeiras ao tentarem comprar tentilhões a A. Um deles, encantado com uma das suas aves, chegava a ir para a frente da sua casa na esperança de que A. cedesse e aceitasse vender-lhe o tentilhão. Implorava, gritava e houve até uma vez que chegou a chorar. Não tinha dinheiro para comprar o pássaro, por isso ofereceu um automóvel Datsun a gasóleo. A., que nem sequer tem a carta de condução, recusou a oferta repetidas vezes. Mas o passarinheiro desesperado não fez caso da nega e voltou a insistir. Tornou a implorar, a gritar e a chorar. Até que a mulher de A. se fartou da situação. Não queria deixar má imagem junto dos vizinhos, que podiam começar a cair na tentação das más línguas. “Vende-lhe já o pássaro! 100 euros, qualquer coisa, só para fazer um favor ao rapaz!” A. fez o favor à mulher. Esse mesmo pássaro foi, poucos meses depois, revendido por 500 euros e foi uma das estrelas nos concursos desse ano.
Mesmo que a maior parte das conversas sobre tentilhões se desenrolem em ambientes calmos e de convívio, como debaixo de uma arcada numa zona de habitação social de Lisboa ou num café de uma associação recreativa de bairro, a competição é sempre o motor de cada tertúlia. Não há conversa em que os passarinheiros mais afortunados não se gabem dos seus tentilhões, chegando até a troçar daqueles que têm pássaros menos “valentes”. Esses passarinheiros, feridos no seu orgulho, reagem como podem. Há quem lance aos sete ventos que fulano tal só tem boas aves porque as roubou a sicrano quando este foi de férias; há quem acuse os passarinheiros mais vencedores de subornarem os jurados dos concursos, de modo a que estes apontem mais cantares do que aqueles que ouvem; chega até a haver quem desafie a honestidade dos passarinheiros, alegando em pleno concurso que, em lugar de um pássaro, o que está dentro de uma gaiola é um gravador a tocar os mesmos cantares em loop.
A A., acusam-no, em surdina, de dar doping aos seus tentilhões. Ele ri-se com esta acusação, mas não deixa de reagir de forma ríspida. “Dizem que eu dou merdas para acelerar os pássaros, mas não sei como é que eles podem pensar isso… Se eu desse merdas aos pássaros eles não se aguentavam. Há comidas que servem para aquecê-los, é verdade, como o cânhamo, só que aquilo rebenta com os pássaros! Dá-lhes cabo do fígado. E eu não quero os pássaros para cantarem só um ano, eu quero-os para vários anos. Agora eu ia fazer mal ao pássaro? Não, não faço isso.” Arreliado com o tema, mas sem perder o sangue frio, explica a razão destes rumores. “Há gajos muita fanáticos, pá. Falam muito, sabes? Falam mais do que os pássaros cantam. Eu não, pá, eu não sou de andar para aí a falar. Eu já ganhei tudo o que havia para ganhar. Nos últimos oito anos limpei tudo. Eu se não tirar mais nada daqui tanto me faz. Há gajos muita fanáticos, pá. Eu não sou desses.”
Para fundamentar a sua tese, A. conta recorrentemente a decisão que tomou nos concursos de 2013. Um dos seus maiores rivais, conhecido como Fardinã, vivia num prédio mesmo em frente ao seu. Eram amigos, mas mantinham sempre o espírito de competição bem vivo. Nem era preciso estarem juntos, como confirmam as janelas dos quartos de cada um, que estão frente a frente. Nos parapeitos, do lado de fora dos dois prédios, ainda se podem ver quatro pregos de cada lado. Era neles que A. e Fardinã penduravam gaiolas com os seus melhores pássaros. A uma distância de 20 metros, competiam entre eles o ano todo. O objectivo era claro: cada um treinava os seus pássaros ao máximo para não se amedrontarem com os tentilhões do outro “na hora da verdade”.
A competição entre os dois manteve-se até ao dia em que Fardinã adoeceu. Foi para o hospital, onde lhe foi diagnosticado um cancro terminal. Morreu a 21 de Janeiro de 2013. “Eu fiquei doente, pá, fiquei doente quando ele morreu. O gajo estava no hospital, eu fui lá vê-lo e, pronto, ele faleceu.” Não tardou até A. fazer uma promessa à viúva. Todos os troféus que ele ganhasse naquele ano ser-lhe-iam entregues em homenagem ao seu marido. “Eu disse-lhe, epá, eu estou a prometer, mas não tenho a certeza se vou ganhar, atenção…”
O primeiro concurso do ano foi num bairro da zona oriental de Lisboa. Correu-lhe mal: os pássaros não estavam virados para cantarem naquele dia e A. ficou num modesto 13º lugar. “Epá, fiquei com vergonha. Eu sou muito sentimental com essas coisas em que morrem pessoas, ‘tás a ver? Então cheguei ao pé dela e pedi-lhe desculpa. ‘Não consegui ganhar melhor, peço-te muitas desculpas, não sei o que se passou…’ Ela disse-me ‘epá, isso não interessa, o que interessa é o que tu és, este ou outro prémio não interessa’.”
Vieram os concursos seguintes e a sorte mudou. Ao todo, A. ganhou 12 taças em três concursos. “Já fiquei contente, é logo outro ânimo. Pá, dei-lhe 12 taças, ‘tás a ver bem o que isso é? Fiquei super contente.” A viúva, surpreendida com tantos troféus de uma só vez, guardou-os em casa juntamente com as taças do marido. Porém, escolheu dar outro destino a uma das taças que A. lhe deu. Uma das taças de 1º lugar que conquistou, uma peça de madeira que representava uma mão a agarrar um pássaro, era importante de mais para ficar a apanhar pó em casa. Por isso, a mulher e os filhos de Fardinã decidiram colá-la na campa do defunto.
“O que eu fiz por ele mais ninguém era capaz de fazer, pá. Havia aí gajos que ficavam com as taças todas para eles, nunca lhes ia passar pela cabeça fazer o que eu fiz. É que isto a mim já não me interessa, eu já ganhei tudo o que tinha a ganhar. Há aí gajos que acham que eu não penso em mais nada para além dos tentilhões. Mas isso são eles, pá. Eles é que são os fanáticos, pá, eu não!”
***
Por mais que A. repita esta ideia – e não são poucas as vezes que o faz –, ela cai por terra todos os Domingos ao raiar do sol. Às 6h00 o despertador toca sem falha, naquele que é o seu único dia de folga em toda a semana. A. levanta-se sem hesitar. Ficar na cama a fazer ronha seria dar um tiro no pé – Domingo é dia de treinar os tentilhões e de testá-los perante os passarinheiros dos outros bairros. A. sai do quarto com cuidado, para não acordar a mulher, vai até à casa-de-banho e lava a cara. De volta ao quarto, veste uma roupa descontraída e escolhe o seu casaco polar azul e branco para se proteger do frio matinal. Depois vai até à marquise e, rodeado de gaiolas tapadas de onde já se ouvem os primeiros bébéchéus, tótóchéus e outros tais do dia, A. abre a janela e apoia os cotovelos no parapeito. Impaciente, vai olhando para as poucas pessoas que passam na rua àquela hora.
“Esta vai para as limpezas”, diz de uma mulher anafada, na casa dos 50, que vai a caminho da paragem de autocarro. “Aquele vem dos copos, só quer é caubóiada”, aponta a um jovem adulto de cara cansada e roupas amarrotadas pela noitada. Depois cumprimenta um homem magro, com as roupas largas a balançar em redor do corpo a cada passo. “Este gajo é um desgraçado… Sai sempre de casa a estas horas para comprar o jornal e o pão ali para o café. O gajo depois vai lá, deixa as coisas e eles dão-lhe um bagacinho de borla, que ele fica todo contente. Desgraçou-se, pá, desgraçou-se… Era bom rapaz.”
Quando deixam de passar mais pessoas em frente ao seu prédio, A. queixa-se do tempo, que está ventoso e nublado; depois fala do Benfica, que então se tinha isolado na liderança do campeonato depois de vencer o Nacional no estádio dos madeirenses; volta a dizer mal do tempo, “que não ajuda nada aos pássaros”, que preferem sol e pouco vento. Pouco dado a conversas de circunstância, A. finalmente suspira de alívio. F. e C. chegam numa carrinha para o apanharem. A. pega em duas gaiolas, segurando-as pelo nó do pano que tapa cada uma, e desce os quatro andares do seu prédio. Entra no carro, senta-se no banco atrás do condutor e encaixa as duas gaiolas entre os pés.
C. leva o carro a 130 quilómetros por hora na faixa da esquerda da 2ª circular enquanto fala para A. O crucifixo preso ao espelho retrovisor abana nervosamente com o embalo do automóvel. Fala-lhe da última vez que ele e F. foram “armar aos pássaros”, isto é, apanhar tentilhões. Naquele caso, fizeram sensivelmente 200 quilómetros para irem de propósito à Figueira da Foz, dado que os pássaros de lá costumam ser “muita tesos”. “Epá, ó A., tu não estás bem a ver. A gente metemos as redes assim ao alto para apanharmos um que lá ‘tava. Eeeh, amigo, nem sonhas. Mesmo teso, o gajo. ‘Tás a ver o que é um pássaro cair na rede cinco vezes e escapar sempre? *-se, ó A., nunca tinha visto um pássaro a escapar àquela rede. Aquele filha da puta só o apanhámos à sexta vez que ele foi lá parar.”
O carro acelera às 7h40, com os outros a ficarem para trás num ritmo lento e domingueiro. C., que é 14 anos mais novo do que A., fala-lhe com o entusiasmo de um filho que anseia por uma demonstração de orgulho do pai. Olha para o banco de trás e esbraceja para melhor ilustrar o episódio, levando as mãos ao volante só quando é estritamente necessário. A., que esteve quase sempre calado, só fala quando vê uma lomba na estrada: “Olha lá, pá, ó C., tu vai devagarinho, olha a lomba! Não quero os meus pássaros  às cambalhotas!”, diz, depois de ter dado um calduço na cabeça do condutor. C. abranda e pouco depois estaciona o carro. Chegaram ao primeiro ponto de encontro em dia de treino para os tentilhões.
Pouco passa das 8h00 e praticamente todos os carros que estão estacionados em frente a um dos cafés daquela zona da cidade têm gaiolas tapadas com panos em cima dos tejadilhos ou dos capôs. Ao todo, são mais de 20 os pássaros que estão ali a ser treinados. Nestas situações, cada passarinheiro trata de colocar o seu tentilhão na posição que mais convém. Por exemplo, se o pássaro ainda é verde, evita colocá-lo muito perto dos outros, não vá ele amedrontar-se para valer. Ou, no caso de uma ave “valente”, se o seu dono ver que finalmente começou a cantar, aproxima a gaiola das outras, para tirar o máximo partido daquele embalo. Há provocações, picardias e bocas a toda a hora. “Não és homem não és nada, mete lá o teu pássaro aqui ao pé do meu para veres o que é bom!” Todas as gaiolas estão tapadas por panos brancos, mas não são todas iguais. Os passarinheiros menos rigorosos, mais interessados no convívio do que na competição, usam qualquer pano, desde que seja de cores claras. Olhando para as gaiolas destes, nota-se que cada uma tem um nó diferente a prender o pano. No caso dos melhores passarinheiros, os nós são atados com critério ímpar. “Se vier um gajo mexer-me no pássaro pelas minhas costas eu noto logo, porque ninguém faz nós como eu”, diz A. Quando a gaiola está bem tratada, o pano está impecavelmente branco, como se tivesse sido lavado há horas e com as bainhas feitas. A., incapaz de se imaginar a segurar uma gaiola que não esteja em perfeitas condições, faz pouco dos mais desleixados. “Olha para isso pá, o teu pássaro é um carocho, tens o pano todo cagado!”
O momento de maior tensão nesta manhã é quando A., C. e outros dois passarinheiros decidem colocar os seus pássaros juntos uns aos outros, com as gaiolas dispostas em fila indiana. Nem uma palavra foi dita durante dez minutos. Apenas se ouviam os tentilhões a cantarem à desgarrada, uns mais do que outros, sem intervalo. O embate foi acompanhado efusivamente pelos passarinheiros, mesmo que em total silêncio. Sempre que o pássaro de C. se sobrepunha aos outros, este imitava o gesto de um murro e repetia-o uma mão cheia de vezes, ao mesmo tempo que nos seus lábios podia ler-se: “Pum, pum, pum, pum, pum!” Ainda assim, no final do desafio, embora não tivesse havido uma contagem cuidada, todos os passarinheiros concordaram: nenhum dos pássaros tinha vencido.
Sem sorte por aqueles lados, às 9h20, A. sugere à sua trupe que o treino avance para outro lado. “Vamos andando?” Três minutos depois, o carro está a andar em direcção a outro bairro social de Lisboa. Mesmo antes de chegarem ao café onde costumam conviver a maior parte dos passarinheiros daquelas bandas, A., galvanizado, aperta a voz e de forma cavernosa diz: “Até tremem!” Debalde, pois quando os três entraram no café, aperceberam-se de que eram os únicos por lá. A., que demonstra pouca consideração pelos passarinheiros daquela zona, pede um café ao balcão e, ao mesmo tempo que o bebe, abana a cabeça em desaprovação. “Estes gajos não valem nada, dormem muito!”
São 10h00 quando o carro parte de novo, desta vez em direcção a uma zona habitacional na periferia de Lisboa. Quando chegam, não há passarinheiros na rua, como é tradição. A mistura de nuvens, humidade e ameaça de chuva também não os convence a treinar os pássaros naquela manhã. A. ainda bate à porta de um amigo, chama-o e pede-lhe para trazer o pássaro dele. “Anda lá que já levas a sova, rapaz!”, grita ao amigo que estava à janela de casa. Assim que este desce, as gaiolas são novamente alinhadas. O silêncio é absoluto – tanto dos homens como dos pássaros, que não querem cantar. Desanimado, A. faz sinal para irem embora, quer ir para casa. F. e C. obedecem.
Agora é F. que toma o volante, a um ritmo mais conforme o Código da Estrada. Talvez por não ter de se preocupar tanto com os seus tentilhões a cada curva apertada, lomba ou buraco na estrada, A., outra vez  sentado no banco de trás, parece ter as palavras bem medidas quando diz: “Este ano os meus pássaros não valem nada, este ano não ganho.”
De todas as características que um verdadeiro competidor tem, desde a obsessão por melhorar a cada dia até ao bate-boca com os seus concorrentes mais directos, A. tem tudo. À excepção de uma coisa: não sabe, não quer, nem lhe interessa fazer bluff. Por isso, quando começa a explicar o seu pessimismo para os concursos deste ano, F. abranda ainda mais o carro e C., sentado no banco do pendura, baixa o som do rádio, que estava sintonizado na Cidade FM.
A. trabalha há mais de 20 anos em limpezas de janelas. O trabalho só não é repetitivo “porque não há um vidro igual”, mas a variedade não é suficiente para afastar o cansaço. “Aquilo é duro, pá, um gajo tem de estar em pé montes de horas, às vezes todo torcido, e depois é sempre a limpar, sempre a limpar… Mas tem de ser.” Tem mesmo de ser, e explica porquê com números simples: “Eu lá em casa tenho quatro. São quatro filhos, pá. Só a mais velha é que tem idade para trabalhar, mas não arranja nada em lado nenhum, ela já meteu os papéis mas nunca a chamam. Com a minha mulher somos cinco, e ela também não trabalha, está reformada aos 37 por causa das costas dela, estão todas partidinhas. Comigo somos seis. Quando é um a dar para tantos, um gajo não pode falhar…”
A três meses do primeiro concurso, A. foi chamado ao escritório do patrão. Como costuma acontecer nestas situações, ele tinha duas notícias para lhe dar – uma boa e outra má. A má era que o instituto que contratava a sua empresa teve de reduzir custos e decidiu cortar as despesas com limpezas. A boa era que A. estava convidado para trabalhar à hora noutros edifícios. Tudo isto implicava que o seu horário passasse a ser mais imprevisível, mas por regra mais exigente. Se até então trabalhava das 6h00 às 10h00 e das 16h00 às 20h00, a partir dessa altura a maior parte dos dias seriam das 6h00 às 20h00, com pouco mais de uma hora de sobra para almoçar. As horas extraordinárias fariam chegar o seu salário perto dos 1000 euros. “Claro que aceitei, pá, então… Somos 6 lá em casa, teve de ser.”
Ganhando a família, perdem os pássaros. Com o novo horário, passou a deixar de ter o intervalo entre as 10h00 e as 16h00, ideal para tratar deles e para testá-los perante os restantes tentilhões do bairro. “Como é que eu agora tenho tempo para fazer o que fazia dantes? Não tenho, pá, chego a casa todo arrebentado, e à noite já não vale a pena fazer nada com os pássaros que eles já não cantam. Epá, então fica tudo mal feito, pá. Às vezes até é a minha mulher que trata dos pássaros, mas não é a mesma coisa, pá, e os pássaros sentem. Não é por mal, ela faz o melhor que sabe, mas os pássaros conhecem é estas mãos, eu é que sei como é que aquilo é tudo.” F. e C. ouvem-no atentamente, com alguma surpresa. “É assim, pá. Não posso trocar o ‘bules’ pelos pássaros.”
F. e C. não tecem grandes comentários às declarações de A., talvez por surpresa. Não conseguiram acompanhá-lo além de um “claro, então, a família é o mais importante” e outro “o quem te de ser tem muita força”, ambos ditos num tom de circunstância. Quando o deixaram à porta do seu prédio às 11h00, A. despediu-se deles. Já depois dos apertos de mão, sentiu necessidade de dizer-lhes: “Mas vamos lá a ver, isto nunca se sabe! Só no concurso é que a gente sabe, é a hora da verdade que conta!”.
***
Às 7h30, pouco de depois de se ouvir que A. “é a mesma coisa todos os anos”, ele sai de perto do assador da carne e vai marcar o seu lugar em frente ao portão de ferro e rede do recinto do Concurso de Tentilhões – o primeiro de 2014, no dia 3 de Maio. Falta meia hora para os concorrentes poderem escolher, ao preço de 2,5€ cada uma, as séries em que querem competir. Este ano foi introduzida uma nova regra – cada concorrente só pode comprar quatro entradas. Duas até à pausa para almoço, às 13h00, e as outras duas entre as 14h30 até ao fim do dia.
De repente, A. parece não ter sono nenhum. Agarrado ao portão, discute à última hora com F. e C. quais são as melhores séries para cada um concorrer. Tentam também arranjar maneira de contornar a nova regra, pedindo aos sobrinhos de F., que também lá passaram a noite, para comprarem senhas por eles.
Quando o portão abre às 8h00, A. toma a dianteira na distância de 40 metros que tem de percorrer até à mesa de plástico onde estão a ser vendidas as séries. Só não corre até lá porque ninguém o faz, mas percebe-se que todos os passarinheiros estão alerta, embora não queiram dar parte fraca. O compromisso possível é uma passada rigorosa e larga até à mesa.
“Já está, pá, já está, agora até tremem!”, gaba-se A., logo após conseguir inscrever-se na 1ª e 2ª série do dia.
As infraestruturas deste concurso parecem ser um hino à arte do desenrascanço. As paredes e o tecto da barraca que serve de bar e cozinha são feitas com retalhos de madeira, portas velhas pregadas umas às outras, plásticos que caíram em desuso e algumas chapas de zinco. Tudo o que tem tinta, tem-na com o aspecto de que já está a descascar-se há anos. Ao longo do recinto estão dispostos quatro bungalows, erguidos por quatro estacas de ferro e com palha a servir de tecto. Os que ficam lá debaixo sentam-se em cadeiras de plástico e ao redor de portas de madeira que, com o engenho de quatro paus em cada canto, servem de mesa. Há ainda duas barracas que foram construídas para servirem de casa-de-banho. Lá dentro, encontram-se todas as porcelanas dignas de uma casa-de-banho convencional. Ainda assim, a sanita termina num buraco sem ligação a esgoto e o chão está tapado com o mesmo material que é usado nos parques infantis. Mesmo assim, a maior parte dos homens prefere urinar num dos vários cantos do recinto.
Contam-se mais de cem passarinheiros dentro do recinto, um pouco espalhados por toda a parte. Apesar de o terreno onde este concurso decorre ser da Câmara Municipal de Lisboa, ninguém tem dúvidas de que o motivo para ali estarem todos juntos é ilegal. Não só a lei proíbe que sejam apanhados tentilhões com a intenção de os retirar do seu habitat, como os concursos não são aprovados, uma vez que podem ser prejudiciais para a saúde dos tentilhões. Ainda assim, são poucos os passarinheiros que vivem com medo – as autoridades, garantem, estão mais preocupadas com os traficantes de aves exóticas, como araras e papagaios, que chegam a ser vendidos por milhares de euros. Não se sabe ao certo de onde vem este “desporto”. “Isto já tem uns 100 anos ou mais!”, arriscam alguns. Sabe-se, porém, que esta actividade também é praticada na Bélgica. Há quem arrisque, embora sem provas, que os concursos de tentilhões foram trazidos para Portugal pelos soldados que combateram na Flandres, durante a Grande Guerra.
Às 8h20, A. já está com um pássaro na mão para entrar na primeira série. Chega antes de todos e coloca o seu pássaro na “mesa”. Uma mesa é, na verdade, um ferro, suportado por um tripé, que fica a 1,80m de altura. Cada série do concurso tem cinco mesas, dispostas como as cinco pintas de uma peça de dominó. A. escolhe a do meio.
Uma série tem 15 minutos, mas A. deixa o pássaro a jogo e afasta-se ao terceiro minuto. Nestas alturas recorda-se de um episódio que aconteceu a poucos metros de si num outro concurso. Um passarinheiro que aparentava já estar perto dos 70 anos acompanhava a prova atenta e entusiasticamente enquanto o seu tentilhão concorria. “O pássaro ia lançado, começou a cantar à maluca, e o velhote começou a passar-se. ‘Ai, o meu passarinho! Vou ganhar, pá, vou ganhar!’” Com tanta excitação, caiu para o lado. Quando o INEM chegou já era tarde. O concurso foi interrompido, mas alguns pássaros ainda cantavam. Todos menos o que pertencia ao falecido. “Ele deve ter sentido, não sei”, julga A.
A. regressa à mesa quando a primeira série já vai no 11º minuto. Dizem-lhe que o pássaro dele não está a cantar nada. Aparentemente chateado, entra para dentro do recinto, onde por norma só podem estar os cinco membros do júri e o líder destes, e tira o pássaro de lá. Afasta-se, em passo meio rápido. “Se não canta, não canta, não vale a pena estar a massacrar o animal.”
Volta pouco depois para a segunda série, já com outro pássaro. Não quer dizer qual é, mas desta vez corre-lhe melhor. Apesar do barulho em volta, não das pessoas mas antes dos aviões que levantam voo na pista do aeroporto, a menos de 500 metros, o pássaro consegue ficar à frente com 163 cantares em 15 minutos. “Ah, assim está melhor.” Sem mais nada a fazer pela manhã, e esgotada a adrenalina que lhe fez esquecer o sono por uma hora, A. liga ao sobrinho e pede-lhe que o venha buscar. Quer ir para casa dormir.
É nesta altura que todos estranham a sua ausência. Debate-se o assunto em círculos sempre com menos de quatro passarinheiros, não vá alguém ouvi-los e isso dar problema. Há quem o desculpe com o sono, mas também há outros que não lhe perdoam a retirada. “O A. já deu o que tinha a dar, acabou-se para ele. O gajo já não faz mais nada. Alguma vez um pássaro dele só dava 163 cantigas de manhã? A ‘Mota’ já está velha, pá, o tempo dele já foi à vida. Agora vêm os outros.” O tom triunfalista é notório e arrasta-se até à hora de almoço. Estão cerca de 100 passarinheiros no recinto. Há frango assado para quem tem sete euros de parte ou sandes de bifanas ou couratos para os que só dispõem de dois. Mas a maioria prefere fazer uma viagem até casa para não gastar mais dinheiro. É também por falta dele que se diz que este ano “veio pouca gente, para aí metade”.
Quando A. regressa são já 14h45, e desta vez traz o seu filho Albertino pela mão. À parte do tamanho, da voz e das tatuagens, são os dois iguais. Caminham da mesma forma, com os braços a balançarem largamente para trás e para a frente. Os ombros, curvados, oscilam para o lado da perna que dá o passo. Já sem frio, A. vem de t-shirt e calções, deixando à mostra a tatuagem que tem no gémeo esquerdo – um pergaminho gravado com os nomes e as datas de nascimento dos filhos, organizados por ordem cronológica. Chegou a horas de comprar senhas para as duas últimas mesas, a acontecer ao fim tarde.
Até lá, alguns passarinheiros oferecem-lhe bebidas mas ele, pouco habituado a beber, não vai para lá de três imperiais. Uns tentam falar com ele, metem conversa com o filho e riem-se das semelhanças entre um e outro. Ninguém fala sobre a prestação dos seus pássaros, à excepção de um rapaz de 20 anos, que, embora não tenha pássaros, veio ver a competição. Com a cara carregada de piercings, aproveita que A. está por perto e diz-lhe: “Ó A.,  pá, tu és como o [Futebol Clube do] Porto! O teu reinado já acabou, já foste!” Ri-se alto e estridentemente, até que vê um sorriso amarelo do outro lado. “Epá, estava a brincar, A., não leves a mal, pode ser?.” “Não, pá, é na boa”, diz-lhe A., pouco convencido, para depois puxar o filho pela mão e dizer-lhe em voz alta e num sorriso mal ensaiado: “Vamos mas é embora Albertino, vamos mas é embora, isto é só facciosos!”
Sai do recinto, deixa o filho com o sobrinho, que põe a dormir dentro do carro. Nessa altura, A. pede para não ser chateado e senta-se à sombra de uma das paredes exteriores de um estádio que próximo do recinto do concurso.
Pouco depois, C. vai ter com A. e senta-se a seu lado. Queixam-se do dia, que lhes está a correr mal. A noitada não valeu de nada, os pássaros de cada um não tinham demonstrado o seu verdadeiro valor da parte da manhã e era pouco provável que o fizessem de tarde. “*alho para os pássaros, pá, não querem mesmo cantar”, diz C. A. levanta-se e tenta ser optimista: “Não cantam nada o *alho, pá, até treme, meu paneleiro! Vamos embora, pá, vamos embora, se não ganho eu, então ganhas tu!”
C. tinha razão. Chegados às 25ª e 26ª mesas, nenhum dos pássaros cantou. A., que já sentia que estavam a falar dele pelas costas, começa a dizer para todos: “Ena pá, venham ver, pá, venham ver! O pássaro do A. não cantou nenhum, c’um caraças, pá!” Leva tanta ironia como frustração.
Mas ainda não se deu por vencido. As 163 cantigas dadas pelo seu pássaro na segunda série garantiram-lhe o 4º lugar na classificação geral. Assim, tem direito a ir à final com os cinco melhores do dia. Quando sabe que tem acesso ao último desafio, despacha-se para ir ter com o sobrinho e pede-lhe para o levar imediatamente a casa.
A. volta ao concurso 30 minutos depois, às 19h30, em cima da hora da final. Traz uma gaiola na mão e novamente o filho pela outra. Vai apressadamente até à mesa, deposita o seu pássaro no tripé que fica mais distante do público e espera até ao início do concurso. Desta vez fica por perto. O sol de fim de tarde bate-lhe no pescoço, que já não se livra de um escaldão. Ouve o pássaro com atenção, sem desviar os olhos da gaiola. Continua aquém do seu valor, e isso percebe-se quando A. começa a abanar a cabeça repetidamente. No final dos 15 minutos, contaram-lhe 95 cantares. O vencedor foi um passarinheiro de Cascais, forasteiro no circuito dos bairros lisboetas. Quando soube que ganhou, com 205 cantigas, foi buscar o pássaro e, a chorar de emoção, abraçou e beijou a mulher.
O dia já acabou e por isso, junto ao bar, já soa a música “We are the champions”, dos britânicos Queen. O som sai com a qualidade possível de um rádio tosco apoiado numa prateleira na parte de fora da barraca do bar. Junto ao rádio estão 11 taças – uma para o concorrente mais assíduo do dia e as restantes para os dez primeiros classificados. Quando a lista de vencedores está a ser confirmada pelos organizadores do concurso, apoiados no balcão onde foram servidas centenas de minis e imperiais durante o dia, A. vai até ao pé deles e pedes-lhe um favor.
A. – Olhem lá, mudem aí o meu nome, tirem lá isso da ficha.
– Ora essa?… E metemos o quê? Epá, vai lá para ao pé dos outros, mas é…
A. – Não sejas parvo, pá. Mete aí o nome do meu filho que é para ele ficar com uma taça, pá. Albertino.
Minutos depois, já a canção dos Queen vai na terceira repetição, Albertino levanta a taça de 4º lugar do Concurso de Tentilhões como se fosse sua.

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Bié, bié, bié, bié, tuiiiim, tuiiiim, tuiiiim, tuiiiim, tótótóchéu!



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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Qua Jun 18, 2014 9:50 am

Meu amigo só posso agradecer este relato , revivi outros tempos passados junto do meu tio e do meu falecido avô , nos concursos e foi como se tivesse neste momento la no meio da maralha a degustar um courato a ouvir mil e uma historias de armações e de passarinhos famosos...
Isto sim é arte e tradição  cheers 
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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Qua Jun 18, 2014 11:11 am

Grande relato Zé muito bom só podia ser no meu bairro  Very Happy  Very Happy 

 kaci  fixe
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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Qua Jun 18, 2014 1:09 pm

Em grande  fixe 


Ler as Regras e fazer a Apresentação é um dever seu! » Regras ler [Você precisa estar registrado e conectado para ver este link.] e [Você precisa estar registrado e conectado para ver este link.] - Apresentação clicar [Você precisa estar registrado e conectado para ver este link.]

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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Qua Jun 18, 2014 8:56 pm

Sim Jorge foi no teu bairro ,mas vieram filmar o Golias ,ficaram parvos ao verem a gaiola aberta e a cantar na varanda e afastei-me dela e de lá nao saiu ,um aparato na rua do caneco e depois foram para um concerto comigo ,firmarem a minha cena hehehehe
Tá porreiro ,melhor que o outro ,na primeira página ,foi isto que quiz fazer ,agora já nada me meto nisto  de concursos ,vou arrumar as botas ,cheguei onde queria ,ou seja foi por mim que souberam ,pelos meus videos e rescaldos ,agora vou dar a vez a  outro ,trouxe-os para os passarinhos e heavy fucking metal ,portanto a minha deixa chega agora ao fim duns bons anos a divulgar isto por essa net fôra 
A serio ,que vou cair fôra .Que surja outros .


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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Qua Jun 18, 2014 11:10 pm

Estamos a ficar velhos haja sangue novo

kaci   jola fixe
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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Qui Jun 19, 2014 7:19 pm

Eu é ,já  fiz mais que a minha parte Jorge ,já chega ,já parti muito a tola ,muita desatino virtual ,sei  lá ,agora tempo de dar o lugar  a  outro .


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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Qui Jun 19, 2014 10:39 pm

kaci  jola fixe
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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Ter Jun 24, 2014 1:54 pm

Não vai surgir sangue novo , pois a ganancia , a fome e o medo que outros tenham mais e melhor é tal que não deixa a malta racicionar , o sangue novo que entra nestas lides aos pouco se vai perdendo e esquecendo ....
as terras boas continuam no sitio , ja os passarinhos esses são outros , muitas terras estão contaminadas de chouriços ... tive num cantinho que era forte em coscoscheus por lá ainda anda materia prima mas la aparece um choeu pelo meio , deu-me prazer voltar a ouvir passarinhos por lá visto que a area ha uns anos bons limparam os eucalipos ..
Muito sinceramente acho que os valores que se vão passando a estas novas gerações são mesmo a da ganacia e não o respeito pelos passarinhos , da arte á seria pouco , muito pouco se ensina , apanham tudo a direito machos femeas , coisas que a mim me foram passadas foi que as femeas eram sempre soltas , na altura dos novos , nunca se trazia passaros velhos , só se trazia as pintas e tentas e um ou outro pintaroxo , todos os outros iam a vida deles sempre com peso e medida não se trazia muitos e nem se ia muitas vezes , não se mexia no que não era nosso , sobretudo nos produtos da terra fosse uma laranja ou um melão passando pelas couves , tomates pimentos etc , não se deixa lixo no sitio e nem se cortam ramos , galhos etc etc uma serie de coisas que poucos respeitam .. não pode ser a unica meia duzia a lutar contra os sabe tudo , os armados ao pingarelho que tem ma mania que são os maiores do bairro ... por estas e por tantas outras não vejo nada de bom para quem ama a tradição ... os puros iram ser puros até ao fim ja os outros continuaram iguais a si mesmo ...
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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Ter Jun 24, 2014 4:23 pm

É isso Zé por aqui também vejo o mesmo já não respeitam nada levam tudo a eito só pensam neles é apanhar para vender só não vê quem não quer e aos poucos se vai destruindo de norte a sul pois porque essa gente corre tudo

 kaci  nofixe  nofixe  nofixe  nofixe  nofixe  nofixe
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MensagemAssunto: Re: Tentilhâo-Cantares e Tradiçâo Lisboeta    Ter Jun 24, 2014 10:56 pm

Ora vêm como vâo ao encontro do que digo ,é isso mesmo que penso ,sou diferente e sempre fui e sempre serei .


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